Introdução

Estima-se que o número de pessoas com mais de 64 anos cresça de aproximadamente 524 milhões em 2010 para 1.5 mil milhões em 2050 (NIA & NIH 2011). O envelhecimento da população tem várias implicações em termos sociais, nomeadamente nos sistemas de saúde, uma vez que com o aumento da esperança média de vida aumenta também a necessidade de manutenção do estado funcional e da qualidade de vida do idoso. A promoção de atividade física regular e de hábitos alimentares saudáveis têm o potencial de reduzir substancialmente a carga da doença e de melhorar a qualidade de vida. Importa assim compreender as interações entre fatores intrapessoais, sociais e ambientais, de forma a desenvolver estratégias efetivas de promoção de hábitos nutricionais e de atividade física salutogénicos (McNaughton et al. 2012).

Uma grande percentagem das doenças crónicas que afetam os idosos podem ser evitadas ou significativamente melhoradas através de melhorias na alimentação, proporcionando assim um envelhecimento ativo e saudável (Omran & J E Morley 2000). De facto, a malnutrição constitui um exemplo de “estado nutricional em que a deficiência ou excesso de energia, de proteína ou de outros nutrientes provoca efeitos adversos mensuráveis ​​sobre a forma e função corporal, com resultados clínicos” (Nieuwenhuizen et al. 2010)

Não existem, em Portugal dados atuais sobre consumos e hábitos alimentares individuais. O primeiro e único Inquérito Alimentar Nacional foi realizado há cerca de 35 anos (1980) pelo INSA, com a colaboração do Ministério da Agricultura e Pescas. A informação existente está desatualizada e impossibilita o conhecimento de padrões e comportamentos alimentares da população Portuguesa, nomeadamente porque há evidência de que os hábitos alimentares dos portugueses têm sofrido alterações profundas devido a novos estilos de vida, com impacto relevante para a saúde. Neste momento, está a ser implementado um novo inquérito alimentar cuja importância é reconhecida nas Orientações Estratégicas do Plano Nacional de Saúde (PNS) 2012-2016, pelo Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável.

Apesar deste défice de informação epidemiológica a nível nacional, há estudos que alertam para o facto de a desnutrição ser um problema prevalente em pessoas idosas (na comunidade: estima-se que 4,3% dos idosos estejam desnutridos e 25,4% em risco de desnutrição; em idosos institucionalizados em lares e residências sénior estima-se que esta prevalência atinja os 85%), associado a compromissos graves de  saúde, comprometendo a qualidade de vida e implicando custos substanciais para os sistemas de saúde e a sociedade em geral (Nieuwenhuizen et al. 2010). Assim sendo, a malnutrição deve ser encarada como uma das maiores ameaças para a saúde, bem-estar e autonomia dos idosos. São múltiplos os determinantes de malnutrição, importado contextualizar este problema de saúde com variáveis como (entre outras): problemas de saúde física (caquexia, sarcopénia, malabsorção ou hipermetabolismo) (J. E. Morley 2012), alterações de apetite, competências cognitivas, compromisso de saúde mental (depressão, alcoolismo, entre outras), isolamento social, autonomia funcional e/ou financeira, contexto sócio-ambiental (viver na comunidade ou em lares, por exemplo), entre outras (Visvanathan et al. 2004). Apesar desta multi-causalidade da desnutrição, na maioria dos casos, é evitável e as intervenções para a detetar e tratar são eficazes (Nieuwenhuizen et al. 2010).

A desnutrição na pessoa idosa é muitas vezes desvalorizada e o seu diagnóstico requer ferramentas de triagem específicas, bem como sensibilização dos profissionais de saúde e formação adequada (J. E. Morley 2012). Embora o diagnóstico precoce da desnutrição permita uma intervenção atempada, verifica-se de forma generalizada défice de avaliação de estado nutricional em populações de alto risco (Nieuwenhuizen et al. 2010). As instituições de saúde devem ter políticas e protocolos específicos para identificar pacientes em risco nutricional, de forma a que possam ser encaminhados para cuidados nutricionais apropriados (Kondrup 2003).

É difícil fazer recomendações universais sobre o rastreio e a intervenção nutricionais, uma vez que a prevalência e os tipos de problemas nutricionais variam de acordo com o país, instituição de saúde e os recursos locais (Elia et al. 2005). Em França, por exemplo, as autoridades de saúde publicaram diretrizes para desenvolver uma ferramenta para identificar e gerir situações de desnutrição ou risco de desnutrição entre idosos. Essas orientações abordam questões como: quem são as pessoas idosas em risco de desnutrição e/ou quais são os fatores de risco? Quais as ferramentas que podem ser usadas para detetar e diagnosticar a desnutrição? Como é diagnosticada a desnutrição grave? Que estratégia de suporte nutricional e que medidas preventivas e remediativas devem ser implementadas? Como deve ser assegurada a coordenação entre as diferentes pessoas envolvidas e os diferentes locais de intervenção? (HAS 2007).

Políticas alimentares e nutricionais com o objetivo de melhorar a saúde e o estado nutricional da população exigem uma base de evidência científica e capacidade para medir os resultados. Um sistema de vigilância nutricional preenche esses requisitos e é definido como o método adequado para a recolha, análise e comunicação de dados sobre fatores de risco nutricionais, estado nutricional e doenças relacionadas com a nutrição da população. Contudo, a implementação de um sistema de vigilância nutricional deve ser acompanhada por uma avaliação inicial para determinar o tipo e a extensão dos problemas nutricionais da população-alvo, identificar e descrever os grupos de risco, identificar e avaliar os determinantes da desnutrição, e identificar fontes de dados que possam ser úteis para esse sistema (WHO 2013).

O presente estudo integra duas componentes de investigação que, no seu conjunto, visam contribuir para o conhecimento do estado nutricional dos idosos Portugueses e para o desenvolvimento de um sistema electrónico de vigilância desse estado, visando promoção e proteção da saúde do idoso. As duas componentes de investigação são:

1) Inquérito alimentar e nutricional à população residente em Portugal com mais do que 64 anos (inquérito de base nacional);

2) Desenvolvimento e teste de um sistema electrónico de vigilância do estado nutricional quer ao nível dos cuidados de saúde primários quer ao nível dos lares de idosos. Este sistema pretende ser exequível e utilizável pelos profissionais de saúde (médicos de família e enfermeiros, assim como outros profissionais de saúde com a devida formação), permitindo a identificação de risco nutricional no idoso e referenciação para consulta de avaliação nutricional mais detalhada (funcionando assim como ferramenta de monitorização, screening e referenciação).